O Papel do Espírito Santo no Ensino Cristão.


A educação cristã é sem igual por causa do seu tema — a Bíblia, a reve­lação escrita de Deus; por causa de sua meta — transformação espiritu­al de vidas; e por causa de sua dinâmica espiritual — a obra do Espírito Santo.
Negligenciar o ministério do Espírito no ensino é desprezar um dos aspectos mais importantes da educação cristã.
A NECESSIDADE DO ESPÍRITO SANTO NA EDUCAÇÃO
Por que o Espírito Santo deveria ser necessário na educação cristã? Não é suficiente colocar a Bíblia nas mãos de professores cristãos, incentivando-os a seguir os princípios pedagógicos formais e usar métodos e mate­riais apropriados? O que o Espírito Santo pode acrescentar ao processo do ensino/aprendizagem no âmbito cristão que seja exclusivamente dEle? Por que o Espírito Santo é necessário no processo educacional?
        RAZÕES POR QUE O ESPÍRITO SANTO É NECESSÁRIO
Uma razão por que o Espírito Santo é necessário na educação cristã é que o professor cristão precisa da capacitação divina. Só pelo Espírito Santo os professores podem ser guiados e capacitados a ensi­nar efetivamente a Bíblia e assuntos relacionados. Uma tarefa espiritual — envolvendo verdades espirituais para satisfazer necessidades espiri­tuais — requer poder espiritual. Eficiência no serviço exige salvação e obediência ao Espírito Santo. Procurar servir ao Senhor na própria for­ça, sem a dependência do Espírito Santo, é de pouca valia para a obten­ção de resultados duradouros.
Prioridade de vida, que se origina da submissão ao controle do Espírito, contribui para o ensino eficaz. Inversamente, o fracasso em modelar a verdade torna o professor ineficaz. Os alunos não são atraídos para as verdades ensinadas por um professor que "fala com afetação" sem modelá-los. Inconsistência entre o que os lábios dizem e o que a vida demonstra "desliga" os estudantes e vira-os em direção contrária.
Outra razão por que a obra do Espírito Santo é necessária no processo do ensino/aprendizagem é que Ele torna a Palavra de Deus eficaz na vida dos estudantes. Conhecimento da Bíblia e compreensão das verdades espirituais, embora sejam essenciais, não garantem por si mesmos mudança e crescimento espirituais. Nem todos os que ouvem a Palavra acreditam nela ou aceitam suas verdades (Jo 10.25; 12.47,48; At 7.57-59; 17.5,32). Assim como a Palavra de Deus regenera (Sl 19.7; Rm 10.17; Tg 1.18; 1 Pe 1.23), o Espírito Santo deve estar presente para remover a cegueira espiritual e dar vida eterna (Jo 3.5-7; Tt 3.5).
Os crentes também devem estar abertos ao ministério da Palavra e do Espírito. A Palavra santifica (Jo 17.17-19; At 20.32; Ef 5.26; 1 Pe 2.2), e o mesmo faz o Espírito (2Ts 2.13; 1 Pe 1.2).A Palavra ilumina (Sl 119.105,130;2Tm 3.l6),e o mesmo faz o Espírito (Jo 14.26; 16.13; 1 Co 2.10-15). A Palavra escrita, para que tenha eficácia na vida dos incrédulos e crentes, precisa do ministério do Espírito Santo. Vidas transformadas reivindicam a Palavra e o Espírito. Ε considerando que a educação cristã focaliza-se em ocasionar vidas espiritualmente transformadas, o processo do ensino/aprendizagem exige as Escrituras Sagradas e o Espírito Santo. Um sem o outro é inadequado.
Fonte: Roy B. Zuck – Manual de Ensino.

"ESPOSO DE UMA SÓ ESPOSA."

Ver também 1 Timóteo 5.9 ("esposa de um só esposo"). Isso não pode significar que um bispo ou ancião deva ser um homem casado. Antes, presume-se ser ele casado - como era comumente o caso - e estipula-se que em sua relação conjugal deve ser exemplo para os de­mais na fidelidade para com sua esposa. A infidelidade nessa relação é um pecado contra o qual a Escritura reiteradamente nos adverte. À luz de muitas passagens, é evidente que esse pecado e os relacionados com ele (imoralidade sexual em qualquer forma) eram de ocorrência fre­qüente entre os judeus e, por certo, entre os gentios (entre muitos ou­tros: Êx 20.14; Lv 18.20; 20.10; Dt 5.18; 22.23; 2Sm 12; Is 51; Pv 2.17; Pv 7; Jr 23.10, 14; 29.23; Os 1.2; 2.2; 3.1; Mt 5.28; Jo 8.3; Rm 1.27; 7.3; 1Co 5.1, 9; 6.9-11; 7.2; Gl 5.19. Ver também C.N.T. sobre I Ts 4.3-8). E não nos esqueçamos do que Paulo fala nessa mesma epístola (ver sobre lTm 1.10).
     Conseqüentemente, o sentido desta passagem (lTm 3.2) é simples­mente este: que um bispo ou ancião deve ser um homem de moralidade inquestionável, que seja inteiramente fiel e leal à sua única e exclusiva esposa; que, sendo casado, não se põe, segundo o costume dos pagãos, em relação imoral com outra mulher.
     Considerando isso, é injustificável a tentativa de alguns mudarem o sentido do original - fazendo-o dizer o que não diz. Em harmonia com o ponto de vista de alguns pais da igreja (por exemplo, Tertuliano e Crisóstomo), e em concordância com as explicações favorecidas por outros (por exemplo, Jerônimo e Orígenes), esses tradutores e comentaristas são da opinião de que Paulo, aqui, está se referindo a homens que, vindo a ser viúvos, tornam a casar-se. A tradução (?), pois, vem a ser esta: “O bispo deve ser um homem que se tenha casado uma única vez”.61 É possível entender como homens que rejeitam ou abafam a infalibilidade da Escritura - os quais, conseqüentemente, já não se sentem mais obrigados a aceitar as indubitavelmente verdadeiras palavras "Paulo... a Timóteo" (ITm 1.1,2) - podem também dar um passo a frente, supondo que as Pastorais refletem condições que prevaleciam depois da partida de Paulo deste mundo, num tempo quando muitos começaram a exaltar o celibato e o estado de virgindade acima do matrimônio, e introduzir no texto sua reconstrução particular da formação dessas cartas, de modo que pensem do autor das Pastorais como um homem que considerava o matrimônio e um segundo casamento como pecaminoso ou algo desse gênero. Não é possível justificar uma tentativa de fazer um texto dizer o que realmente não diz no original. O original simplesmente diz: "Ele deve ser... esposo de uma só esposa" (δeΐ-μιάς γυνajικος άνδρα).62
   O autor genuíno das Pastorais, ou seja, Paulo, não se opunha ao casamento depois da morte de um dos cônjuges (ver especialmente 1Tm 5.14; e então 4.3; cf. Rm 7.2, 3; 1Co 7.9), ainda que, sob certas circunstâncias específicas, ele considerava ser mais prudente continuar no estado de solteiro do que de casado (1Co 7.26, 38). Podemos estar certos de que Paulo estava em completa harmonia com o autor de Hebreus, quando diz: 'Ό casamento deve ser honrado por todos" (Hb l3.4).
Exemplo de um homem que fornece toda evidência de ter sido fiel a sua única e exclusiva esposa, e da bela harmonia entre ambos, inclusive em assuntos religiosos:
Áquila
"Quando Priscila e Áquila o ouviram, convidaram-no para ir a sua casa e lhe explicaram com mais exatidão o caminho de Deus" (At 18.26).

61.  Assim, ou de um modo semelhante, Parry. Goodspeed, Moffatt, R.S.V. e outras.
62. As traduções corretas são as seguintes, entre outras: siríaca (publicada pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, Londres, 1950, 1. 142); latim (Teodoro Beza: "unius uxoris virum"; inglês (A.V., A.R.V., Weymouth, Lenski, Berkeley; a mesma idéia, Williams: "must nave only one wife" - "deve ter somente uma esposa"; Riverside: "true to one woman" -"fiel a uma só mulher"); holandês (Statenvertaling: "eener vrouwe man" - "esposo de uma só esposa"; Nieuwe Vertaling: "de man van een vrouw" - "o esposo de uma só esposa"); frísio; sul-africano; francês (versão D'Ostervald); alemão (versão de Lutero e as subseqüentes); sueca (autorizada em 1917, edição de Estocolmo 1946). (Em português, só Matos Soares traz: "que tenha esposado uma só mulher" e a Bíblia de Jerusalém: "esposo de uma única mulher", transparecendo esta idéia. Segundo nosso entendimento [tradutor], todas estão concorde com o acima exposto.)
Fonte: William Hendriksen - As Pastorais

Esposo de uma só mulher.


Lit., no grego, "homem de uma única mulher". Não se trata de um comentário sobre casamento ou divórcio (para obter comentários sobre este assunto, veja nota no v. 4). A questão não tem a ver com o estado civil do presbítero, mas com sua pureza moral e sexual. Essa qualificação é a primeira da lista porque é nessa área que os líderes são mais propensos a cair. Foram oferecidas várias interpretações dessa qualidade. Alguns a vêem como uma proibição da poligamia uma injunção desnecessária uma vez que a poligamia não era comum na sociedade romana e era claramente proibida na Escritura (Gn 2.24), nos ensinos de Jesus (Mt 19.5-6; Mc 10.6-9) e nos de Paulo (Ef 5.31). Um polígamo não podia se­quer ser membro, muito menos um líder da igreja. Outros vêem nesse requisito a exclusão do ministério daqueles que se casaram novamente após a marte da esposa. Porem, como já foi observado, a questão é a pureza sexual, e não o estado civil. Além disso, a Bíblia recomenda casar-se novamente depois da viuvez (5.14; 1Co 7.39). Alguns acreditam que Paulo exclui aqui os homens divorciados da liderança na igreja. Isso novamente ignora o fato de que essa qualificação não está relacionada ao estado civil. A Bíblia também não proíbe todos os tipos de casamento depois do divórcio (veja notas em Mt 5.31-32; 19.9; 1Co7.15). Por fim, alguns acreditam que esse requisito exclui os homens solteiros da liderança na igreja. Contudo, se essa fosse a intenção de Paulo, ele mesmo estaria desqualificado (1 Co 7.8). O que é "marido de uma única mulher" dedica-se totalmente à esposa e mantém a devoção, o afeto e a pureza sexual tanto em pensamento como em ação. Violar essa qualificação é deixar de ser "irrepreensível" (Tf 1.6-7).
Fonte: Bíblia de Estudo John MacArthur Jr.

Sombra e substância na epístola aos hebreus.

Algumas vezes o escritor faz uma distinção entre realidades celestiais e as cópias imperfeitas que vemos na terra (p. ex., 9.23), e tem havido muitos estudos sobre até que ponto ele empresta idéias do platonismo para seus argumentos. Platão dizia que a "idéia" perfeita de tudo existe no céu, de modo que aquilo que vemos na terra não passa de uma atualização imperfeita do arquétipo celestial. Alguns estudiosos concluíram que o escritor aos Hebreus está fazendo uso dessa distinção.
Contudo, tem sido rebatido com sucesso que a carta como um todo não apresenta nenhuma indicação de que seu autor era um filósofo estudado. Somos lembrados de que o Antigo Testamento nos informa que Moisés foi instruído a preparar tudo para o tabernáculo "segundo o modelo" que lhe foi mostrado no monte (Ex 25,40); por isso, alguns estu­diosos acham que não precisamos de mais nada para explicar a terminologia do autor,
Há afirmações e textos judaicos que dizem mais ou menos a mesma coisa que Êxo­do — por exemplo: "Mandaste-me construir um templo em teu santo monte e um altar na cidade onde fixaste a tua tenda, cópia da tenda santa que preparaste desde a origem" (Sabe­doria 9,8), A dificuldade com isso é que a ênfase nos escritos judaicos está em que o terreno é uma cópia exata do celeste, e não é isso que o autor de Hebreus está dizendo.
Provavelmente devemos entender que ele está fazendo uso de uma forma de pla­tonismo popular em Alexandria. Seu pensamento principal concorda com o Antigo Testamento, mas ele também declara que o celestial excede de longe o terreno; em algu­mas passagens isso é muito importante. Por exemplo, ele vê os sacerdotes levitas servin­do em um santuário que não passava de "figura e sombra" do celestial (8.5), o antítipo do verdadeiro (9.24). A própria lei não era mais que sombra das coisas boas que viriam; ela não era a própria realidade (10.1). O ministério de Cristo não foi exercido no templo, no santuário terreno, mas no "maior e mais perfeito tabernáculo" (9.11), e seu sacrifício foi melhor do que qualquer uma das "figuras das coisas que se acham nos céus" (9.23). Tal­vez devamos acrescentar:
   1) A avaliação sobre Moisés de que "o opróbrio de Cristo" tinha mais valor do que os "tesouros do Egito" (11.26).
   2) O contraste entre o monte Sinai e o monte Sião (12.l8ss), com sua advertência que faz o contraste entre a voz do céu e a da terra (12.25).
Todas essas passagens ajudam o autor a demonstrar que o que aconteceu em Cristo é muito superior ao que pode ser encontrado em qualquer religião na terra, incluindo o judaísmo. A maneira por que ele formula isso varia; a convicção de que Cristo e o caminho aberto por ele devem ser considerados acima de tudo mais é constante.
Fonte: Leon Morris - Teologia do Novo Testamento.

IGREJA

I. SIGNIFICADO
Em português o vocábulo "igreja" se deriva, do latim ecclesia, que por sua vez do grego ekklesia, palavra esta que no NT, na maior parte de suas ocorrências, significa uma congregação local de cristãos, e jamais um edifício. Ainda que freqüentemente falemos sobre essas congrega­ções em sentido coletivo, chamando-as de igre­ja do NT ou de igreja primitiva, nenhum escritor do NT emprega o termo ekklesia nesse sentido. Ekklesia era uma reunião ou assembléia. Seu emprego mais comum era a respeito da assem­bléia pública de cidadãos devidamente convo­cados, e que era característica de todas as cida­des fora da Judéia onde o evangelho foi im­plantado (p.ex., At 19.39). O termo ekklesia também foi usado entre os judeus (na LXX) para significar a "congregação de Israel", que foi constituída no Sinai e se reunia na presença do Senhor por ocasião das festividades anuais nas pessoas de seus representantes masculinos (At 7.38). Quer o uso cristão de ekklesia tenha sido adotado pela primeira vez segunda o em­prego gentio ou o emprego judaico o ponto continua sendo disputado certamente era subentendida "reunião" e não "organização" ou "sociedade". Localidade era essencial ao seu caráter. A ekklesia local não era reputada como parte de alguma ekklesia de âmbito mundial, o que teria sido uma contradição de termos. A referência nos melhores textos de At 9.31 à igreja "por toda a Judéia, Galiléia e Samaria" não é uma exceção. Visto que esse versículo conclui a descrição geral da dispersão da igreja de Jerusalém (8.1), parece correto considerar que ekklesia neste caso se refere à igreja de Jerusalém espalhada de tal modo a ocupar o território da "antiga eclesia que tinha sede na totalidade da terra de Israel" (Hort, The Christian Ecdesia, p. 46).
Apesar de que podia haver tantas igrejas quan­tas eram as cidades ou até mesmo os lares, o NT, contudo, reconhece apenas uma ekklesia sem encontrar necessidade de explicar a relação entre a única e as muitas. A única não era um amálga­ma ou federação formada pelas muitas. Era uma realidade "celeste", pertencente não à forma deste mundo, mas antes, à dimensão da glória da ressurreição onde Cristo está exaltado à mão direita de Deus (Ef 1.20-23; Hb 2.12; 12.23). Entretanto, visto que a ekklesia local se reunia em nome de Cristo e tinha ele em seu meio (Mt 18.20), a mesma prova dos poderes da era vindoura e era a primícia daquela ekklesia escatológica. Assim é que a igreja local individual é chamada de "igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue" (At 20.28; cf. 1Co 1.2; 1Pe 5.2; 1Co 12.27).
II. A IGREJA DE JERUSALÉM
No sentido cristão, a igreja apareceu pela primeira vez em Jerusalém, após a ascensão de Jesus. Compunha-se predominantemente de um grupo de discípulos galileus de Jesus, juntamente com aqueles que corresponderam à pregação dos apóstolos em Jerusalém. Apesar de que, julgando por Atos, a nova comunidade não começou a usar imediatamente o termo ekklesia para descrever a si mesma, via-se como o remanescente eleito de Israel, destinado a encontrar a salvação em Sião (Jl 2.32; At 2.17s.), bem como o tabernáculo restaurado de Davi, que o próprio Jesus prometera reedificar (At 15.16; Mt 16.18). Jerusalém, portanto, tornou-se a localidade divinamente apontada para aqueles que aguardavam a "restauração de todas as cousas" (At 3.21). Externamente, o grupo de crentes batizados tinha o caráter de seita (gr., haeresis) dentro do judaísmo. Foi mesmo chamada de "seita dos nazarenos" (At 24.5) por certo orador profissional (cf. At 28.22), enquanto seus próprios aderentes cha­mavam sua fé distintiva de "o caminho". Foi mais ou menos tolerada pelo judaísmo durante os trinta anos difíceis de sua vida na Judéia, exceto quando as autoridades judaicas ficaram perturbadas com sua fraternização com igrejas gentias no estrangeiro. Mas o caráter essencialmente judaico da igreja de Jerusalém deve ser observado. Seus membros aceitavam as obrigações da lei e da adoração no templo. Sua crença distintiva era que Jesus de Nazaré era o Messias, e que o próprio Deus comprovara isso ressuscitando-o dentre os mortos, após haver ele sofrido pela redenção de Israel, e que o "grande e terrível dia do Senhor" estava realmente próximo e culminaria numa manifes­tação final do Messias por meio de julgamento e glória. Suas práticas distintivas incluíam batis­mo em nome de Jesus, freqüência regular à instrução fornecida pelos apóstolos, e "comu­nhão" em bases familiares, o que é descrito por Lucas como "no partir do pão e nas orações" (At 2,41-46). A primeira liderança da igreja se compôs dos doze apóstolos (galileus), especial­mente Pedro e João, mas logo cedeu lugar à liderança dos anciãos, na maneira judaica regu­lar, tendo Tiago, irmão do Senhor, como presi­dente (Gl 2.9; At 15.65.). A presidência de Tia­go se prolongou durante a maior parte da his­tória da igreja em Jerusalém, talvez mesmo des­de a terceira década (Gl 1.19; cf. At 12.17) até sua execução, em c. 62 d.C. É bem possível que essa situação estivesse mais ligada aos conceitos messiânicos da igreja. "O Trono de Davi" era uma esperança muito mais literal entre os cren­tes judeus do que comumente percebemos, e Tiago também pertencia "à casa e à linhagem de Davi". Será que ele não seria reputado como legítimo protetor ou príncipe regente depen­dendo do retorno pessoal do Messias? Eusébio relata que certo primo de Jesus, Simeão, filho de Clopas, substituiu Tiago como presidente, e que Vespasiano, após a captura de Jerusalém, em 70 d.C, segundo se diz, ordenou fosse feita pesquisa a respeito de todos quantos fos­sem da família de Davi, e que não fosse deixado vivo entre os judeus quem quer que pertences­se à família real (EH, iii. 11,12).
A igreja se expandiu (At 21.20) e passou até a incluir sacerdotes e fariseus em sua membresia (6.7; 1 5.5). Logo no início também incluiu muitos helenistas, isto é, judeus da dispersão que falavam o grego, e que tinham chegado como peregrinos para assistirem às festividades, ou que por qualquer motivo estavam habitando em Jerusalém. Tais judeus freqüentemente eram mais ricos do que os da própria Jerusalém, e demonstravam piedade trazendo "esmolas à sua nação" (cf. At 24.17). Quando a igreja adotou a prática do sustento mútuo, um benfeitor típico foi o cipriota Barnabé (At 4.34-37), e quando se tornou necessária uma comissão para administrar alívio, os sete nomeados, a julgar pelos seus nomes, também eram helenistas (6.5).
Aparentemente foi por meio desse elemento helenista que o evangelho se propagou para além dos estreitos limites do cristianismo judeu e criou raízes novas em territórios estrangeiros. Estevão, um dos sete, entrou em debate com elementos da sinagoga helenista de Jerusalém (da qual possivelmente Saulo de Tarso era membro) e foi acusado perante o Sinédrio de haver blasfemado contra o templo e contra a lei mosaica. Sua defesa certamente demonstra uma atitude liberal para com a inviolabilidade do templo, e a perseguição que se seguiu à sua morte, talvez tenha sido orientado contra essa espécie de tendência entre os crentes helenistas, e não tanto contra o cristianismo obediente à Lei dos apóstolos, os quais permaneceram em Jerusalém enquanto os demais foram "dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria". Filipe, outro dos sete, levou o evangelho à Samaria e, depois de ter batizado o eunuco etíope perto da antiga cidade filistéia de Gaza, saiu pregando pelas cidades costeiras até que chegou à cidade de Cesaréia, de população proeminentemente pagã, onde pouco depois o apóstolo Pedro se encontrou administrando o batismo a gentios incircuncisos. Significativamente, foram elemen­tos helenistas que partiram de Jerusalém para Antioquia, onde pregaram aos gentios sem apresentar qualquer estipulação sobre a lei mosaica. Após Estêvão, parece que o elemento helenista da igreja de Jerusalém desapareceu, passando a prevalecer seu caráter judaico. Alguns dos seus membros desaprovavam a prática de oferecer o evangelho aos gentios sem exigir-lhes a necessidade de guardarem a lei, e saíram a impôr seu ponto de vista sobre as igrejas novas (At 15.1; G! 2: 12; 6,125,). Oficialmente, entretanto, a igreja de Jerusalém deu sua aprovação não só à missão de Filipe em Samaria e ao batismo de Cornélio em Cesaréia, mas também à orientação da nova igreja de Antioquia e de seus missionários. Em c. 49 d.C. a igreja em Jerusalém foi formalmente interrogada sobre o que deveria ser exigido daqueles que "dentre os gentios, se convertem a Deus". E ficou determinado que, enquanto os crentes judeus, naturalmente, deveriam continuar circuncidando seus filhos e observando a lei, tais requerimentos não deviam ser impostos sobre os crentes dentre os gentios, ainda que destes últimos devia ser solicitado que fizessem certas concessões aos escrúpulos judaicos, o que facilitaria a comu­nhão de mesas entre os dois grupos, e que observassem a lei concernente à pureza sexual (At 15.20,29; 21.21-25). Tais procedimentos refletem a primazia de Jerusalém em questões de fé e moral. De fato, durante toda aquela primeira geração, ela era "a igreja" por exce­lência (v. At 18.22, onde a igreja de Jerusalém está em vista). Isso também pode ser notado na atitude de Paulo (Gl 1.13; Fp 3.6), a qual ele tentou transmitir às igrejas que fundou (Rm15.27). Sua visita final a Jerusalém, em c. 57 d.C., foi um reconhecimento a essa primazia espiritual. Foi saudado por "Tiago, e todos os presbíteros", e relembrado que os muitos mem­bros da igreja eram todos "zelosos da lei". Toda a sua cautela, todavia, não foi suficiente para salvá-lo da suspeita de deslealdade con­tra as esperanças nacionais judaicas. Tiago, "o Justo", foi judicialmente morto por instigação do sumo sacerdote, em c. 62 d.C. Quando irrompeu a guerra contra Roma, em 66 d.C., a igreja em Jerusalém chegou ao fim. Seus mem­bros, no dizer de Eusébio, fugiram para Pela, na Transjordânia (EH, iii.5). Daí por diante divi­diram-se em dois grupos: os nazarenos que, embora guardassem a lei, tinham atitude tole­rante para com seus irmãos na fé entre os gen­tios; e os ebionitas, que herdaram o ponto de vista judaico sobre a obrigação para com a Lei. Mais tarde os cristãos incluíram os ebionitas entre os grupos heréticos.
III. A IGREJA EM ANTIOQUIA
É fácil compreender que quando a igreja em Jerusalém se descrevia como a ekklesia, isso es­tava de conformidade com suas reivindicações de ser o remanescente restaurado de Israel, a verdadeira "congregação do Senhor". O que Atos não explica é como, imediatamente fora do território de Israel, viesse a aparecer um gru­po misto de judeus e gentios que também foi chamado de "ekklesia de Antioquia" (v. At 13.1). No entanto, assim sucedeu. Antioquia, e não Jerusalém, era o modelo da "nova igreja", a qual deveria aparecer por todo o mundo. Esta foi fundada por judeus helenistas, Ali os cren­tes foram pela primeira vez apelidados de christianoi, "homens-de-Cristo", por seus vizinhos gentios (At 11.26). Antioquia tornou-se o tram­polim para a expansão do evangelho por todo o Oriente. A figura chave a princípio foi Barnabé, que possivelmente também era helenista, ainda que gozasse da plena confiança dos líde­res da igreja de Jerusalém, os quais o enviaram para fazer investigação. Ele aparece pela primei­ra vez entre os "profetas e mestres", que, até onde sabemos, eram os únicos funcionários existentes naquela igreja. Barnabé trouxe Saulo, o fariseu convertido, desde Tarso - um inte­ressante solvente para o fermento! Barnabé tam­bém liderou duas expedições missionárias à sua própria terra natal, Chipre, enquanto em com­panhia de Paulo fez a primeira incursão na Ásia Menor. Havia elos importantes entre Jerusalém e Antioquia. Profetas de Jerusalém subiam e ministravam em Antioquia (At 11.27), confor­me fez o próprio Pedro e os enviados por Tiago (Gl 2.11,12), para não mencionarmos os visi­tantes farisaicos de At 15.1. Por sua vez, Antio­quia expressava a sua comunhão com Jerusa­lém enviando alívio em tempos de fome (At 11.29), e posteriormente apelou para Jeru­salém para que a igreja dali provesse solução para a controvérsia legal. A liderança profética na igreja de Antioquia incluía um africano cha­mado Simeão, Lúcio de Cirene, e um membro do séquito de Herodes Antipas. O autor de Atos tem sido reputado nativo de Antioquia (nos prólogos anti-marcionitas). Porém, a maior fama da igreja em Antioquia é que a mesma "recomendou" Barnabé e Saulo "à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido" (At 14.26).
IV. IGREJAS PAULINAS
Apesar do fato claro que Barnabé e Paulo não foram os únicos missionários cristãos da primeira geração, praticamente nada sabemos acerca dos trabalhos dos demais missionários, incluindo os próprios doze apóstolos. Paulo, entretanto, afirmou ter pregado o evangelho "desde Jerusalém e circunvizinhanças, até ao Ilírico" (Rm 15.19), e sabemos que ele fundou igrejas segundo o padrão estabelecido em Antioquia, nas províncias sulistas da Ásia Menor, na Macedônia, na Grécia e na Ásia Ocidental, onde fez de Éfeso a sua base, e, por inferência da epístola a Tito, também em Creta. Se real­mente fundou igrejas na Espanha (Rm 15.24), não sabemos. Por onde ia, fazia das cidades o seu centro, de onde ele (ou seus associados) atingiam outras cidades da província (At 19.10; Cl 1.7). Sempre que possível, a sinagoga judai­ca servia de ponto inicial, onde Paulo pregava como rabino enquanto lhe fosse dada essa oportunidade. Com o tempo, entretanto, uma ekklesia separada essa palavra deve ter assu­mido algumas vezes o sabor de synagoge (cf. Tg 2.2) composta de judeus convertidos e gentios, vinha a existir, e cada qual dessas igre­jas locais contava com seus próprios anciãos apontados pelo apóstolo ou seu delegado den­tre os crentes maduros responsáveis. O lar desempenha um papel importante no desenvolvi­mento dessas igrejas (v. FAMÍLIA). O AT traduzi­do para o grego era a Escritura sagrada de todas essas igrejas, e a chave de sua interpreta­ção era indicada em certas passagens seleciona­das juntamente com um sumário claramente definido sobre o próprio evangelho (1Co 15.1-4). Outras "tradições" concernentes ao ministé­rio e aos ensinos de Jesus, eram entregues em cada igreja (1Co 11.2, 23-25; 7.17; 11.16; 2Ts 2.15), com padrões fixos de instrução ética referentes às obrigações sociais e políticas. Não se sabe quem batizava ou presidia regularmen­te à ceia do Senhor, ainda que ambas essas ordenanças fossem observadas. Quão freqüen­temente ou em que dias as igrejas se reuniam também é ponto ignorado, ainda que uma reu­nião para o partir do pão, no primeiro dia da semana, à noite, seja comprovada em Trôade (At 20.7). O primeiro dia não podia ser obser­vado como se fosse um sábado, entretanto, visto que não era considerado dia santo, e tam­bém Paulo não forneceu regras obrigatórias sobre a observância de dias santificados ao Se­nhor (Rm 14.5). Os membros judeus devem ter observado muitos costumes no que não eram acompanhados por seus irmãos gentios. A evi­dência mais completa sobre o que acontecia quan­do a igreja se reunia, fica em 1Co 11-14. Não havia ligações organizacionais entre as igrejas fundadas por Paulo, ainda que houvesse afini­dades naturais entre as igrejas de uma mesma província (Cl 4.15,16; 1Ts 4.10). Esperava-se que todas se submetessem à autoridade de Paulo em questões de fé, mas tal autoridade era espiritual e admoestativa, e não coerciva (2Co 10.8; 13.10,. A administração local e a disciplina era autônoma (2Co 2.5-10). Nenhuma congregação local pos­suía autoridade sobre as demais, embora todas reconhecessem Jerusalém como a origem das "bênçãos espirituais" (Rm 15.27), pois a coleta para os santos pobres de Jerusalém foi um reco­nhecimento sobre isso.
V. OUTRAS IGREJAS
A origem das outras igrejas mencionadas no NT é questão de inferência. Havia uma igreja bem estabelecida em Roma, com membros gen­tios e judeus, por volta de 56 d.C, quando Paulo escreveu sua epístola aos Romanos. Esta­vam presentes no dia de Pentecoste "romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos" (At 2.10,11), e entre as saudações de Rm 16, há menção de dois indivíduos, Andrônico e Júnias, "os quais são notáveis entre os apóstolos", parentes de Paulo que foram con­vertidos ao cristianismo antes dele. Será isso uma referência que os cumprimenta por terem levado o evangelho a Roma? "Irmãos" vieram ao encontro de Paulo e seus companheiros, quando se dirigiam a Roma; mas nosso conhecimento sobre a igreja dali, sua membrezia e seu estado, é problemático (v. ROMA).
O endereço da primeira epístola de Pedro demonstra que havia um grupo de igrejas espalhadas ao longo da costa sul do mar Negro e pelo interior ("Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia") compostas ou por judeus ou por judeus-gentios. Essas foram às regiões por onde Paulo foi impedido de entrar (At 16.6,7), o que talvez implique no fato que talvez tenham sido a cena da fundação lançada por outro homem, talvez o próprio Pedro. Quanto às próprias igrejas nada aprendemos de distintivo pela citada epístola. Tanto a supervisão como a responsabi­lidade de "alimentar o rebanho" em cada um desses lugares eram exercidas por anciãos (1Pe 5.1,2).
Isso exaure nosso conhecimento sobre a fundação de igrejas particulares nos tempos neotestamentários. Em Apocalipse emerge um pouco mais sobre as igrejas da Ásia Ocidental. Pensa-se que igrejas certamente devem ter sido fundadas pelo menos em Alexandria e na Mesopotâmia, se não até mesmo mais para o oriente, dentro do primeiro século, mas quanto a isso não existe evidência segura.
Sobre a vida e a organização das igrejas em geral sabemos bem pouco, exceto no caso de Jerusalém, que não foi típico. Porém, o que sabemos nos torna confiantes no fato que sua unidade dependia do próprio evange­lho, da aceitação das Escrituras do AT e do reconhecimento de Jesus como "Senhor e Cristo". Diferenças quanto à organização, às formas de ministério, aos moldes de pensa­mento, e aos níveis de realizações morais e espi­rituais, provavelmente eram maiores do que percebemos comumente. Nenhuma igreja do NT, nem todas as igrejas conjuntamente embora não formassem elas unidade visível exercem qualquer autoridade sobre nossa fé de hoje em dia. Essa autoridade divina pertence exclusivamente ao evangelho apostólico, sen­do contido na totalidade das Escrituras.
Fonte: D. W. B. Robinson - Novo Dicionário da Bíblia.